05/05/2014

Crônica: a moça do cabelo azul

Ela era normal, tinha uma vida normal. Um quarto onde dormir. Comida, roupa lavada. Exceto pelo cabelo azul.
Ela tinha uma pinta bem no meio da bochecha esquerda. Era sua pinta da sorte, como dizia.
Em um dia em que nuvens eram praticamente uma aberração no céu, a moça do cabelo azul andou por horas a fio. Ela não sabia onde estava nem que horas eram. Seus pés doíam de tanto andar, mas ela queria continuar.
Chegando em um bairro pouco movimentado, ela avista em uma mesa de bar seu ex-namorado. Só que ele estava acompanhado por uma garota.
A garota do cabelo loiro, com sorriso bizarro na cara e um decote que não acabava mais.
-Piranha, pensou.
Ela não se conteve. Entrou no bar de cabeça baixa, sentou na banqueta do balcão e lá ficou ouvindo a conversa dos dois. Mas na verdade não ouvia nada. Ela só conseguia reproduzir em sua mente: "o que é que estou fazendo aqui? o que é que estou fazendo aqui? o que é que estou fazendo aqui?"
Saiu.
Continuou seu caminho sem rumo.
Parou.
Sentiu uma gota de lágrima rolar.
Girou os calcanhares, passou em uma farmácia e voltou para casa.
E no banheiro, às onze horas da noite, a moça deixava de ter cabelo azul.

Ela não queria que seu cabelo a definisse. Ela tinha muita coisa mais importante para pensar.
Agora era morena, com cabelos cor castanho e olhos mais vivos do que nunca.

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